Contribuições de Humboldt nas delimitações do território brasileiro

Alexander von Humboldt escreveu a mão e em francês um parecer a respeito dos limites noroestes do Brasil. Na Revista de História da Universidade de São Paulo (USP), o historiador Carlos H. Oberacker Junior (1976) discute o relatório de Humboldt sobre questões de fronteira entre Brasil, Venezuela e Colômbia (a então Nueva Granada) e o Prof. Paulo Soethe retoma esse caso em artigo que sairá em coletânia na Alemanha organizada pelo pesquisador Tobias Kraft, que coordena grande projeto na Academia de Ciências de Berlim-Brandenburgo na área de Humanidades Digitais voltado à disponibilização e comentário de textos e documentos de Alexander von Humboldt (veja mais aqui).

 
Na publicação detalhada de Oberacker está disponível um fac-símile do manuscrito armazenado no Museu Imperial de Petrópolis (Documento I 6029), assim como uma tradução do documento  para o português. O historiador relata a cautela do governo português, que não permitia a entrada de cientistas estrangeiros para observações em território brasileiro. Ele diz que Humboldt também foi vítima dessa cautela – ou, mais precisamente, dessa desconfiança - e explica que a excursão do naturalista alemão até a região fronteiriça, a qual possibilitou o relato ao império do Brasil muitos anos depois, se deu por uma inconsistência de relatos acadêmicos a respeito do encontro entre o rio Orinoco e o Rio Negro, efluente do grande rio Amazonas. Tal viagem permitiu a comprovação cientifica desse canal, chamado Cassiquiare, que interliga os dois grandes rios e já era de conhecimento geral da população que residia naquela região.
 
Em sua carta Humboldt menciona certas investidas de portugueses para além do canal, entretanto com base em suas viagens com o seu companheiro, o médico e botânico francês Aimé Bonpland, ele conclui que não havia nenhum estabelecimento português ao norte. Alexander não chega a adentrar em território brasileiro, segundo Oberacker Jr., o cientista obteve as informações que desejava em um encontro com militares portugueses que lhe advertiram a não entrar em terras brasileiras por causa da conjuntura política. Há até o relato de um ofício que determinava a prisão do “dito Barão de Humboldt” por este fazer indagações que seriam prejudiciais aos interesses da coroa portuguesa, sobre o qual Humboldt só ficou sabendo anos  mais tarde, e, segundo o historiador, esse tratamento teria magoado profundamente o naturalista. O explorador naturalista confirma também em seu parecer que os limites estariam de acordo com os conhecimentos geográficos manifestados na sua obra Voyage.
 
Nesse sentido, a carta de Humboldt foi um parecer objetivo a favor da paz e da colaboração entre os povos daquela região, afirma o pesquisador e ele ressalta ainda que Alexander von Humboldt recebeu como forma de reconhecimento às suas realizações a grã-cruz da Ordem Imperial da Rosa. Em 20 de outubro de 1855, Alexandre, já em idade avançada, escreveu a Sua Majestade Imperial uma carta de agradecimento também guardada no Museu Imperial (Documento 6094-m. 122), na qual expressava os melhores votos ao jovem imperador, na época com 30 anos, pelo esplendor e fama “ um governo que, estendendo os limites da cultura intelectual, tanto trabalhou nobremente e com sucesso para dar o benefício de uma tranquilidade aos países limítrofes”. Já aqui, com um elogio ao Império brasileiro por sua postura pacífica em face das questões de fronteira, surge o programa de Alexander von Humboldt de uma comunidade mundial cooperativa em rede internacional.
 
Pesquisador: Paulo Soethe (UFPR, Curitiba)
Fonte:
Soethe, P. A. Alexander von Humboldt im nicht bereisten Land: literarisches Wissen im Vorfeld einer späten Rezeption. No prelo. (2020) 
Oberacker Junior, Carlos H. Um parecer de Humboldt sobre os limites no Noroeste do Brasil. Revista de História, Universidade de São Paulo. (1976)
 

 

Autor: 
Bruna Senke Marcelino
Data de Publicação: 
29/09/2020
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